30/08/2017 09:32

Os agrotóxicos

Infelizmente, no Brasil uma gama variada de agrotóxicos é usada em larga escala



            “Somos o que comemos!” Creio que todos já ouviram sobre essa frase, que embora seja muito sintética, é de total verdade. Os alimentos são usados pelo nosso organismo para uma diversidade de ações, como a geração de energia, controle metabólico, constituição de estruturas inorgânicas, entre outros. Mas de onde e como pegamos os nutrientes necessários à nossa vida? E o quanto de veneno ingerimos nesse processo? Já parou para refletir? 

             Pois é... o Brasil é um grande produtor de alimentos do mundo. De acordo com o artigo no Estadão, mais de 7,2 milhões de pessoas são afetadas pelo problema da fome no Brasil. A produção nacional de alimentos é mais que suficiente para alimentar todos os brasileiros. É isso o que aponta a pesquisa feita pelo professor Danilo Rolim Dias de Aguiar, pesquisador do Departamento de Economia do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). No estudo, Aguiar fez um levantamento sobre a produção agrícola e pecuária do país entre 1995 e 2003, excluindo os volumes exportados e alimentos processados, e calculou os itens em calorias e proteínas. O pesquisador considerou que uma pessoa precisa, em média, de 2 mil calorias e 51 gramas de proteína por dia. Nesse cenário, há mais que suficiente para todos: em termos de caloria, a folga é de 20%. Em proteína, 60%.

             Ainda temos que pensar sobre o desperdício de alimentos. Conforme o estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) o desperdício de alimentos ocorre em pelo menos 10% nas plantações. Do que sobra, 50% são perdidos na distribuição, no transporte e no abastecimento. E do restante, 40% se perdem na cadeia do consumo, como nas feiras livres².

            Mas, e a qualidade dos alimentos? Essa é uma grande questão. Infelizmente, no Brasil uma gama variada de agrotóxicos é usada em larga escala. Além da grande quantidade, boa parte desses venenos, não são usados em outras partes do mundo pelo grande risco a saúde e/ou ao meio ambiente. É isso mesmo!!! Em matéria publicada no portal IG na lista dos proibidos em outros países que ainda em uso no Brasil estão o Tricolfon, Cihexatina, Abamectina, Acefato, Carbofuran, Forato, Fosmete, Lactofen, Parationa Metílica e Thiram. Dos agrotóxicos banidos, pelo menos um, o Endosulfan, prejudicial aos sistemas reprodutivo e endócrino, aparece em 44% das 62 amostras de leite materno analisadas por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) no município de Lucas do Rio Verde, cidade que vive o paradoxo de ícone do agronegócio e campeã nacional das contaminações por agrotóxicos. Lá se despeja anualmente, em média, 136 litros de venenos por habitante. Na pesquisa coordenada pelo médico professor da UFMT Wanderlei Pignati, os agrotóxicos aparecem em todas as 62 amostras do leite materno de mães que pariram entre 2007 e 2010, onde se destacam, além do Endosulfan, outros dois venenos ainda não banidos, o Deltametrina, com 37%, e o DDE, versão modificada do potente DDT, com 100% dos casos. Em Lucas do Rio Verde, aparecem ainda pelo menos outros três produtos banidos, o Paraquat, que provocou um surto de intoxicação aguda em crianças e idosos na cidade, em 2007, o Metamidofóis, e o Glifosato, este, presente em 70 das 79 amostras de sangue e urina de professores da área rural junto com outro veneno ainda não proibido, o Piretroides.

            É difícil de acreditar que todos esses venenos realmente chegam a nossa mesa, mas é verdade. Ainda temos um cenário pouco otimista a frente, pois no início do mês de agosto de 2017 o Governo Federal buscou resgatar uma Medida Provisória que altera as regras do uso de agrotóxicos no país. A proposta possibilita a autorização de substâncias cancerígenas. E, por isso, proibidas. É a avaliação de Karen Friedrich, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

            Diante desse cenário, fica a pergunta: o que fazer? Evidentemente não existe dica mágica, mas devemos avaliar o tipo e a origem de todos os alimentos que consumimos (investir em produtores locais e orgânicos é uma boa alternativa) e também pressionar os tomadores de decisão (políticos e empresários) em todas as esferas (federal, estadual e municipal) a buscar implementar/adotar medidas sustentáveis.

#BrasilEnvenenado #Agrotóxicos